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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Linha do Tempo do Holocausto

destaque

- 1924: Hitler escreve seu único livro Mein Kampf (Minha luta), quando esteve preso. A obra se tornou a bíblia do nacional-socialismo e as vendas do livro explodiram em 1933, quando ele sobe ao poder.
(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)


- 1933:
Em 30 de janeiro Paul von Hindenburg, presidente da Alemanha, nomeia Hitler para o cargo de chanceler do Reich, incumbindo-o de formar um novo governo. O partido nazista chega ao poder. Na noite do dia 27 de fevereiro, um incêndio criminoso destrói o Reichstag, o parlamento alemão, em Berlim. O jovem comunista holandês Marinus van de Lubbe será condenado à morte pelo crime, na verdade praticado pelos nazistas.

(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

- 1934: Em 30 de junho ocorre a noite das facas longas (Nacht der langen Messer), quando as tropas da SS, comandadas por Himmler, assassinam o general Ernst Röhm, chefe da SA, e cerca de 1,2 mil correligionários seus, com a aprovação de Hitler. Poucas semanas depois morre o presidente Hinderburg. Hitler se proclama chanceler e presidente plenipotenciário da Alemanha, o Füher.
(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

- 1935:
Começam os afastamentos e proibições de certos trabalhos a judeus. Victor Klemperer, por exemplo, é afastado do serviço público por ser judeu, no contexto de "purificação" nazista do Estado alemão.
(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

- 1936: Olimpíadas de Berlim. Qualquer vestígio de antissemitismo permanece ocultado.
(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

- 1938: Em 13 de março Hitler anexa a Áustria à Alemanha. Judeus são proibidos de frequentar bibliotecas públicas na Alemanha. Em 9 de novembro ocorre a Noite dos Cristais (Kristallnacht), com ataques generalizados contra judeus e sinagogas. 
(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

- 1939: O exército alemão invade a Polônia. Começa a Segunda Guerra Mundial.

- 1940: As casas dos judeus passam a ser confiscadas e alguns deles são obrigados a desempenhar trabalho forçado e gratuito aos alemães.
(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

- 1941: Todos os judeus são obrigados a portar a estrela amarela de Davi na roupa, sob risco de morte se não as portasse. Teria sido neste ano também que o termo "Solução Final" fora usado com o objetivo de exterminar todos os judeus europeus. Câmaras de gás móveis foram utilizadas: o cano de escapamento dos caminhões havia sido reajustado para liberar um gás letal, o monóxido de carbono, dentro dos compartimentos totalmente vedados na carroceria. Três campos de extermínio -- Belzec, Sobibor e Treblinka -- foram criados na Polônia com o objetivo único de facilitar o extermínio em massa.
(Fonte Museu do Holocausto de Washington).

- 1943: Em 31 de janeiro o exército alemão, sob o comando do marechal Friedrich von Paulus, se rende en Stalingrado. É um momento decisivo para a guerra, porque os alemães começam a perder força.
(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

- 1944: O general Claus Schenk, em 20 de julho, tenta matar Hitler, levando uma bomba para uma reunião com o Führer. O atentado falha e os cinco envolvidos são enforcados.
(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

- 1945:
Acossado pela chegada do Exército Vermelho a Berlim, Hitler se suicida em 29 de abril, designando Goebbels como seu sucessor. Este se suicida no dia seguinte, junto com a maior parte dos principais assessores. A Alemanha se rende em 8 de maio.
(Fonte: livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer, tradução de Miriam Bettina Paulina Oelsner)

- 1949:
A República Federal Alemã (Alemanha Ocidental) e a República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) são proclamadas oficialmente.

- 1989:
Cai o Muro de Berlim.

- 1990: A Alemanha é reunificada.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Testemunho de Leo Miechalowski, para o Tribunal de Nuremberg


TESTEMUNHO ENTROU COMO PROVA NO CASO MÉDICO
[do National Archives Record Group 238, M887]


Trechos do depoimento do padre Leo MIECHALOWSKI Nascido 22 março de 1909, em Babrzezne, Polônia.


Pergunta:
Agora, padre, você pode dizer ao Tribunal o que lhe aconteceu depois de sua prisão?

R: Quando fui preso, eu fui mantido pela primeira vez na prisão por dois meses e, de lá, fomos enviados para um claustro onde outros padres estavam reunidos até cerca de noventa sacerdotes por completo, e de lá fomos enviados para Strutthof perto de Danzig no campo de concentração, que foi localizado lá. E, a partir daí, o quinto ou nono dia de fevereiro, fomos transferidos para Sachsenhausen-Oranienburg, que está localizado perto de Berlim. No dia 13 de dezembro de 1940, que foram transferidos novamente para Dachau. Eu estava confinado em Dachau até a chegada dos norte-americanos - até que nos libertaram - que foi no dia 29 de abril de 1945.

Pergunta:
Agora, padre, você foi um prisioneiro político em Dachau?
R: Sim. Eu usava uma insígnia vermelha, que todos aqueles que haviam sido presos por motivos políticos tiveram que usar esta insígnia.

Pergunta:
Agora, padre, houve algum momento em que foram experimentados no campo de concentração de Dachau?

R: Sim. Experimentos sobre malária e também em uma ocasião estávamos envolvidos em experimentos de grande altitude.

Pergunta:
Você disse experimentos de grande altitude, padre?
R: Não, eu disse que as experiências eram de aviação.

Pergunta:
E o que você quer dizer com experimentos de aviação?
R: Bem, eu disse isso porque estávamos vestidos com uniformes de aviador e, em seguida, fomos colocados em recipientes cheios de água e gelo.

Pergunta:
Agora, padre, você vai dizer ao Tribunal exatamente o que aconteceu quando você foi experimentado com malária? Isto é, quando isso aconteceu e como aconteceu para ser selecionado?
R: Eu estava tão fraco que eu caí na estrada, porque todo mundo estava com fome no acampamento. Eu queria ser transferido para outra missão, e mais tarde, tínhamos um pouco de pão para comer entre as refeições, para a melhora da minha saúde pelo alimento adicional. Um homem chegou e selecionou cerca de trinta pessoas para algum trabalho fácil.Eu também queria ser selecionado para este trabalho e os que tinham sido selecionados para este trabalho foram levados. Fomos na direção onde estava localizado o trabalho e, no último momento, em vez de ir para o local de trabalho, foram conduzidos para o hospital do campo. Nós não sabíamos o que ia ser feito com a gente lá. Eu pensei que talvez isso ia ser algum detalhe para o trabalho mais fácil no hospital. Fomos informados de que devemos despir-se e depois de termos nos despir nossos números foram levados para baixo e então perguntamos o que estava acontecendo e eles nos disseram, sorrindo, "esta é para o detalhe de ar." Mas não fomos informados de que iria ser feito com a gente. Em seguida, o médico veio e disse a todos nós que estávamos a ser radiografados. Agora que nossos números já haviam sido tomadas para baixo nós deveríamos ir para nossos blocos. Fiquei dois dias no bloco e depois fui novamente chamado para o hospital e lá me foi dada a malária de tal maneira que havia pequenas gaiolas com mosquitos infectados e eu tive que colocar a minha mão em uma das pequenas gaiolas e um mosquito me picou, e depois eu ainda estava no hospital durante cinco semanas. No entanto, por enquanto não apresentei os sintomas da doença. Um pouco mais tarde, não me lembro exatamente, duas ou três semanas, eu tive meu primeiro ataque de malária. Tais ataques recorreram com frequência e vários medicamentos foram dados a nós contra a malária. Eu fui dado como a nova salvação na a medicina. Foi-me dado duas injeções de quinina. Em uma ocasião me foi dada atabrine e o pior foi que uma vez, quando eu tinha um ataque, me foi dada chamado perifer. Foram-me dadas nove injeções de diferentes tipos, uma a cada hora e a cada dois dias até o sétima injeção. De repente, meu coração parecia que ia ser arrancado. Eu me tornei louco. Eu perdi completamente a minha língua - a minha capacidade de falar. Isso durou até a noite. À noite, uma enfermeira chegou e quis me dar a oitava injeção. Eu era então incapaz para falar e eu disse a enfermeira sobre todas as complicações que tive e que eu não queria receber a injeção. A enfermeira já havia derramado a injeção e disse que iria relatar isso ao Dr. Schilling. Depois de aproximadamente 10 minutos outra enfermeira chegou e disse que ele teria que me dar a injeção depois de tudo. Então eu disse a mesma coisa de novo, que eu não ia ter a injeção. No entanto, ele me disse que ele tinha para realizar essa ordem. Então eu respondi que não importa que ordem que ele tinha, eu não estaria disposto a cometer suicídio. Então ela foi embora e voltou mais uma vez depois de dez minutos. Ela me disse: "Eu sei que você sabe o que pode acontecer se você não aceitar a injeção." Então eu disse, apesar de tudo, "Eu me recuso a receber uma outra injeção e gostaria de dizer que para o doutor." Eu pedi que ele mesmo soubesse que eu não estaria disposto a receber a injeção. Assim após 20 minutos Dr. Ploettner veio com quatro enfermeiras e ele falava para os meus companheiros. "Não vai ser uma grande fila aqui." Então eu disse: "Se eu resisti por um longo tempo eu vou continuar a fazê-lo." Dr. Ploettner, no entanto, era muito calmo. Ele só pegou minha mão e ele checar meu pulso, em seguida, tocou a minha cabeça e me perguntou o que eu tinha tido complicações. Eu disse a ele que eu tinha depois da injeção. E então disse a enfermeira para me dar dois comprimidos, a fim de remover a dor de cabeça e as dores nos rins. Quando eu tinha achado que o Dr. Ploettner estava prestes a sair ele disse aos enfermeiros que estavam a dar-me o resto das injeções. Então eu disse: "Hauptsturmfuehrer, eu me recuso a ser dada injeção." O médico virou-se depois que eu disse isso e olhou para mim e disse: "Eu sou responsável por sua vida, você não." Em seguida, foi então que me deu essa injeção. Foi só estranho que após a oitava injeção nenhum resultado aconteceu, como haviam feito anteriormente, na minha opinião, eu acho que a enfermeira me deu alguma outra injeção. Na manhã me foi dada a nona injeção - quando eu acordei de manhã, os resultados foram, em seguida, como de costume. Fiquei doente e comecei a sentir frio e eu estava com febre alta.


Pergunta:
Padre, eu entendo que você quer dizer que foram injetados com malária em meados de 1942?
R: Foi aproximadamente em meados de 1942 quando estava infectado com malária.

Pergunta:
E foi solicitado o seu consentimento para o experimento da malária?
R: Não. Não me foi pedido para o meu consentimento.

Pergunta:
E você não foi voluntário para essa experiência?
R: Não. Eu fui levado da maneira que acabo de descrever.

Pergunta:
Você fez algum protesto?
R: Em 1942, era muito difícil no campo apresentar qualquer protesto. Quando eu protestei com esta oitava injeção que eu estava a ser dada, eu claramente percebi que teria conseqüências mais graves a mim. Mais tarde, essas coisas poderiam ser arriscadas, mas nesse ano eu ainda acho que eu não teria sido capaz de fazer isso, e eu não acho que teria tido qualquer sucesso.

Pergunta:
Agora quantas pessoas foram experimentadas com você, isto é, nas experiências de malária?
R: No hospital, quando eu tinha meus ataques, havia aproximadamente cinquenta a sessenta pessoas, mas os números mudavam.

Pergunta:
E você sabe o número total aproximado de presos experimentados com malária em Dachau?
R: No final ouvi dizer que cerca de mil e duzentos prisioneiros foram submetidos a essas experiências.

Pergunta:
Você sabe se houve ou não morte a qualquer um desses prisioneiros como resultado dos experimentos de malária?
R: Vários morreram, mas se este foi o resultado direto da malária, eu não sei. Eu sei de um caso em que o paciente morreu depois de terem sido dadas injeções Perifere. Então, eu ainda sei outro padre que morreu, mas depois - e antes de sua morte, ele foi enviado para um outro quarto.

Pergunta:
Era habitual a transferência de pacientes para fora do bloco em que estavam realizando os experimentos da malária se verificassem que eles podem morrer?
R: Ele olhou para mim como se este paciente de quem acabo de falar tinha sido transferido para a razão para que ele não poderia ser visto que aconteceu no caso da malária, mas eu não sei se as pessoas morreram em consequência da malária, porque eu não sou um especialista no assunto.

Pergunta:
Quantos recorrências da febre da malária que você tem, padre?
R: Eu não posso lhe dar o número exato mais. No entanto, esses ataques recorreram com frequência, acho que cerca de cinco vezes, e então eu ainda tive tratamento na cama por algum tempo, e em seguida, houve vários outros, e completamente eu tive dez ataques, um a cada dia. Então cheguei a uma temperatura de 41,6.

Pergunta:
Você ainda sofre os efeitos da malária?
R: Eu ainda tive alguns efeitos depois, mas eu não sei se isso é só da malária, porque eu também foi submetido a outro experimento.

Pergunta:
Bem, você dirá ao tribunal sobre essa outra experiência?
R: Durante esses ataques de malária em uma ocasião, fui chamado pelo Dr. Prachtol e fui examinado por um médico polonês, e Dr. Prachtol me disse: "Se eu tiver alguma utilidade para você, eu vou chamá-lo." No entanto, eu não sabia o que ia ser feito comigo. Vários dias depois, no sétimo dia de outubro de 1942, um prisioneiro veio e me disse que eu devia ir imediatamente para o hospital. Eu pensei que eu ia ser examinado mais uma vez, e eu fui levado através do posto de malária para bloco 5 em Dachau, até o quarto andar do bloco 5, o chamado quarto de aviação, a estação experimental da aviação estava localizado ali, e havia uma cerca, uma cerca de madeira de modo que ninguém pudesse ver o que estava lá dentro, e eu fui levado lá, e havia uma bacia com água e gelo que flutuava sobre a água. Havia duas mesas, e havia dois aparelhos de lá. Ao lado deles havia um monte de roupas que consistia de uniformes, e Dr. Prachtol estava lá, dois oficiais em uniformes da Força Aérea. No entanto, eu não sei seus nomes. Me disseram para me despir. Tirei a roupa e fui examinado. O médico então comentou que estava tudo em ordem. Os fios foram colocados nas minhas costas, também na parte inferior do reto. Depois eu tive que usar minha camisa, minhas gavetas, e depois eu tive que usar um dos uniformes que estavam lá. Então eu tive que usar também um longo par de botas com pêlo de gato e combinação de um aviador. E depois de um tubo foi colocado em volta do meu pescoço e estava cheio de ar. E depois os fios que haviam sido conectadas comigo - eles foram conectados ao aparelho, e então eu fui jogado na água. De repente eu me tornei muito frio, e eu comecei a tremer. Eu imediatamente virei-me para os dois homens e pediu-lhes para me puxar para fora da água, porque eu não seria capaz de aguentar muito mais tempo. No entanto, eles me disse rindo: "Bem, isso só vai durar um tempo muito curto." Dentro dessa água, eu fiquei consciente por uma hora e meia. Eu não sei exatamente porque eu não tinha um relógio, mas isso é o tempo aproximado que passei lá.Durante este tempo a temperatura foi reduzido muito lentamente no início e depois mais rapidamente. Quando eu estava jogado na água minha temperatura foi reduzida muito lentamente no início e depois mais rapidamente. Quando eu estava jogado na água minha temperatura foi de 37,6. Em seguida, a temperatura ficou mais baixa eu só tinha 33 e, em seguida, tão baixo quanto 30, mas depois já fiquei um pouco inconsciente e a cada 15 minutos um pouco de sangue foi retirado do meu ouvido. Depois de terem me tirado da água por meia hora, me ofereceram um cigarro, que, no entanto, eu não queria fumar. No entanto, um dos homens se aproximou de mim e me deu o cigarro, e a enfermeira que estava perto da bacia continuou a colocar esse cigarro na minha boca e puxou-o para fora outra vez. Consegui a fumar cerca de metade deste cigarro. Mais tarde, foi-me dado um pouco de vidro com Schnaps, em seguida, me perguntaram como eu estava me sentindo. Um pouco mais tarde ainda me deram um copo de bebida alcoólica. Que não estava muito quente. Estava bastante morno. Eu estava congelando muito nessa água. Agora, meus pés estavam se tornando tão rígida como ferro, e a mesma coisa aplicada às minhas mãos, e mais tarde minha respiração tornou-se muito curta. Eu, mais uma vez comecei a tremer e suar frio depois apareceu na minha testa. Eu senti como se eu estivesse prestes a morrer, e então eu ainda estava pedindo-lhes para me tirar, porque eu não podia suportar isso por muito tempo.
Em seguida, Dr. Prachtol veio e ele teve uma pequena garrafa, e ele me deu algumas gotas de algum líquido para fora da garrafa, e eu não sabia nada sobre esse líquido. Ele tinha um gosto um tanto adocicado. Então eu perdi a consciência. Eu não sei quanto tempo eu fiquei na água porque eu estava inconsciente. Quando eu novamente recuperei a consciência, foi aproximadamente entre 8 e 8:30 da noite. Eu estava deitado em uma maca coberta com cobertores, e acima de mim havia algum tipo de aparelho com lâmpadas que foram me aquecendo.
Na sala havia apenas Dr. Prachtol e dois presos. Em seguida, Dr. Prachtol me perguntou como eu estava me sentindo. Então eu respondi: "Primeiro de tudo, eu me sinto muito exausto, e, além disso, também estou com muita fome." Dr. Prachtol tinha imediatamente ordenou a ser dada comida melhor e que eu também a me deitar na cama. Um prisioneiro levantou-me na maca e ele me pegou em seu braço e ele me levou pelo corredor para seu quarto. Durante esse tempo, ele falou comigo, e ele me disse: "Bem, você não sabe o que você tem mesmo sofrido." E no quarto o prisioneiro deu-me metade de uma garrafa de leite, um pedaço de pão e batatas, mas que veio de suas próprias rações. Mais tarde, ele me levou para a estação de malária, bloco 3, e lá me ​​colocou na cama, e na mesma noite um prisioneiro polonês - que era um médico, seu primeiro nome era Dr. Adam, mas eu não me lembro o outro nome - Ele veio em ordens oficiais. Ele me disse: "Tudo o que aconteceu com você é um segredo militar". Você não deve discutir o assunto com ninguém. Se você fizer isso, você sabe que as consequências serão para você. Você é inteligente o suficiente para saber disso. "Claro, me dei conta de que eu tinha que manter o silêncio sobre isso.
Em uma ocasião eu havia discutido essas experiências com um dos meus companheiros. Uma das enfermeiras descobriu sobre isso e ele veio me ver e me perguntou se eu já estava cansado de viver, porque eu estava falando sobre esses assuntos. Mas, no caminho foram realizados esses experimentos, eu não preciso acrescentar mais nada a isso.

Pergunta:
Quanto tempo se passou para ser recuperado dos efeitos desses experimentos de congelamento?
R: Levou um longo tempo. Eu também tive vários... (pausa) Eu tinha um coração muito fraco e eu também tive fortes dores de cabeça, e eu também tenho cãibras nos pés com muita freqüência.

Pergunta:
Você ainda sofre os efeitos dessa experiência?
R: Eu ainda tenho um coração fraco. Por exemplo, eu sou incapaz de andar muito rapidamente agora, e eu também suo muito. Exatamente, esses são os resultados, mas em muitos casos eu tive essas aflições desde então.

Pergunta:
Você estava em boas condições físicas antes de você ser submetido a malária e experiências com gelo?
R: Desde a época da fome, eu pesava 57 kg em Dachau. Quando eu vim para o acampamento eu pesava cerca de cem quilos, perdi cerca de metade do meu peso. No começo, eu estava pesado, e eu estava na cama por cerca de uma semana. E então o meu peso caiu para quarenta e sete quilos.

Pergunta:
Quanto você pesa agora, padre?
R: Eu não posso dizer exatamente, mas eu não me pesei ultimamente, mas eu acho que neste momento eu peso 55 kg.

Pergunta:
Você sabe como você foi pré-aquecido nesses experimentos de congelamento?
R: Eu estava aquecido com essas lâmpadas, mas eu ouvi depois que as pessoas foram reaquecidos por mulheres.

Pergunta:
Você sabe aproximadamente quantos presos foram submetidos aos experimentos de congelamento?
R: Eu não posso dizer nada sobre isso, porque foi mantido tão secreto, e porque eu estava lá muito individualmente, e bastante único durante esta experiência.

Pergunta:
Sabe se alguém morreu como resultado dessa experiência?
R: Eu não posso lhe dar qualquer informação sobre isso também. Eu não vi ninguém. Mas dizia-se no acampamento que um grande número de pessoas morreu durante esta experiência.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Prisão de Pitesti




A PRISÃO


A prisão de Pitesti,  foi uma unidade penal em Pitesti, Romênia, é conhecida pelos experimentos de lavagem cerebral realizados pelas autoridades comunistas da Romênia entre 1949-1952 (também conhecido como Experimentul Piteşti - o "Piteşti Experiment" ou Fenomenul Piteşti - o "Piteşti Fenômeno"). 

"The Experiment Piteşti" foi concebido como uma forma violenta de "reeducar" prisioneiros políticos de oposição ao governo comunista da Romênia, principalmente partidários fascistas e anti-semitas da Guarda de Ferro, assim como ex-membros do Partido Nacional Camponês e Nacional Liberal ou membros da comunidade juidaica romena.

O objetivo do experimento, compatível com a tomada do regime no leninismo, era para que os prisioneiros descartassem convicções políticas e religiosas do passado, e, eventualmente, alterar as suas personalidades para obediência absoluta ao regime. As estimativas para o número total de pessoas que passaram por o intervalo de experiência de 1000 a 5000. É considerado o maior e mais intenso programa de tortura lavagem cerebral no bloco oriental.



PRIMÓRDIOS

A prisão foi construída em um estágio anterior - trabalho em que tinha começado no final de 1930, sob o rei Carol III , e foi concluída durante o começo da Segunda Guerra Mundial. Os primeiros presos políticos que chegaram em 1942. Estes foram os alunos do ensino médio suspeitos de terem participado da Rebelião dos Legionários (revolta dos membros da Guarda de Ferro). Por um tempo após a proclamação da República Popular Romena, continuou a abrigar principalmente os culpados de delitos.

Os estágios iniciais de "reeducação" começaram na prisão de Suceava , sendo logo adotada em Pitesti e, menos violentamente na prisão Gherla . O grupo de inspetores foi formado por pessoas que se tinham sido presos e considerados culpados de crimes políticos, e foi dirigido por Eugen Ţurcanu , um estudante na Universidade de Iasi e ex-membro da Guarda de Ferro, que se juntou ao Partido Comunista, antes de serem eliminados. Ţurcanu, que provavelmente estava agindo sob as ordens de Chefe de Segurança Alexandru Nikolski, selecionando uma unidade de sobreviventes de reeducação como seus assistentes na realização das tarefas políticas. Este grupo foi chamado de Organizaţia Deţinuţilor ou Convingeri Comuniste ("Organização dos Detidos Comunistas Convencido").



ESTÁGIOS DE REEDUCAÇÃO

O processo começou envolvido com castigos psicológicos (principalmente através de humilhação) e físicos, tortura.

Os detidos, que foram sujeitos a espancamentos regulares e severos, também foram obrigados a envolver-se em torturar os outros, com o objetivo de desencorajar lealdades passadas. Guardas os forçavam a comparecer em sessões de instrução política, sobre temas como como o materialismo dialético e a história de Josef Stalin do PCUS (Partido Comunista da União Soviética). Era um curso de curta duração , geralmente acompanhado de violência aleatória que incentivou delação ("desmascaramento") para vários delitos reais ou inventados.

Cada vítima do experimento foi inicialmente sujeita a habitual interrogatório, durante o qual a tortura foi aplicada como um meio para expor detalhes íntimos de sua vida ("desmascaramento externo"). Assim, eles eram obrigados a revelar tudo o que pensaram ter escondido em interrogatórios anteriores, na esperança de escapar da tortura, e por isso, muitos prisioneiros confessavam crimes imaginários. 

A segunda fase, "desmascaramento interno", exigiu do torturado revelar os nomes de quem havia se comportado menos brutal ou um pouco indulgente para com eles na prisão.

Humilhação pública também foi aplicada, geralmente no terceiro estágio ("desmascaramento moral pública"), onde os presos foram obrigados a denunciar todas as suas crenças pessoais, lealdades e valores. Notavelmente, os presos religiosos tiveram que blasfemar contra seus símbolos religiosos e textos sagrados.

Os detentos eram obrigados a aceitar a ideia de que seus próprios familiares tinham várias características criminais e grotescas. Eles eram obrigados a escrever falsas autobiografias, compreendendo contas de comportamento desviante.

Além da violência física, os presos sujeitos à "reeducação" deveriam trabalhar para preencher seu tempo em empregos humilhantes (por exemplo, limpar o chão com um pano preso entre os dentes). Além de estarem desnutridos e mantidos em condições degradantes e insalubres.

Tem sido argumentado que as técnicas utilizadas foram finalmente derivadas de Anton Makarenko, controverso da pedagogia e penologia, princípios no que diz respeito à reabilitação.

A prisão também garantiu uma seleção preliminar para os campos de trabalhos forçados no Canal Danúbio, Mar Negro, Ocnele Mari, e outros locais, onde os esquadrões de ex-detentos deveriam estender o experimento.



FIM E O LEGADO

Em 1952, como Gheorghe Gheorghiu-Dej manobrou com sucesso contra o Ministro do Interior Teohari Georgescu , o processo foi interrompido pelas próprias autoridades. O odcc secretamente enfrentou julgamento por abuso , e mais de vinte sentenças de morte foram entregues (Ţurcanu foi responsabilizado pelo assassinato de 30 presos, e os abusos exercidos em 780 outros), Os funcionários da Segurança que tinha supervisionado o experimento, incluindo o coronel Teodor Sepeanu, foram julgados no ano seguinte - todos foram condenados a penas leves, e foram libertados em breve depois. Respondendo às novas diretrizes ideológicas, o tribunal concluiu que a experiência tinha sido o resultado da infiltração de sucesso americana e agentes da Guarda de Ferro, com o objetivo de desacreditar a aplicação da lei romena.

Abandonada e parcialmente em ruínas, o prédio foi vendido a uma empresa de construção em 1991 (após a Revolução de 1989, várias das instalações ou foram derrubados ou sofreram grandes mudanças). Um memorial foi construído em frente à prisão de entrada.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Memorial das Vítimas do Comunismo




Na antiga URSS, não havia "opositores", mas apenas "dissidentes". Diz-se dos intelectuais perseguidos por se oporem ao regime comunista, que surgiram a partir da desestalinização efetuada por Kruschev, a partir de 1956. Os dissidentes eram condenados a molestamento, demissão do emprego, expulsão dos sindicatos profissionais, exames psiquiátricos e confinamento em casas de saúde mental, julgamento e exílio em campos de concentração para trabalhos forçados.

Durante o férreo regime de Stálin, poucos dissidentes conseguiram sobreviver, Abraham Rothberg (2) identifica 3 correntes de dissidência russa: a artística, a política e a científica. A dissidência artística inclui nomes como Ehrenburg (Degelo), Dudintsev, Yevtushenko, Pasternak (Doutor Jivago), Soljenítsin (Arquipélago Gulag). A dissidência política: Yakir, Amalrik, Litvinov, Grigorenko, Marchenko. E a dissidência científica: Sakharov (pai da bomba de hidrogênio soviética), Tamm, Kapitsa, Medvedev.

Um dissidente famoso foi o escritor Boris Pasternak, que havia passado um ano na prisão de Lubianka (3), em Moscou, e quatro anos num campo de trabalhos forçados na Sibéria, do qual foi libertado (como Soljenítsin) pela anistia geral após a morte de Stálin. Em 1956, Pasternak concluiu Doutor Jivago, que foi rejeitado por várias editoras soviéticas, controladas pelos "herdeiros de Stálin". Pasternak enviou uma cópia do romance a Giangiacomo Feltrinelli, editor italiano e membro do PCI. O livro foi publicado na Itália no dia 15 de novembro de 1957, embora Pasternak tivesse pedido a Feltrinelli para não fazê-lo, pois vinha sofrendo ameaças do regime de Moscou.

No dia 23 de outubro de 1958, a Academia Sueca outorga o Prêmio Nobel de Literatura a Pasternak. Começa a perseguição contra o escritor e no dia 28 de outubro de 1958 ele é expulso da União dos Escritores Soviéticos, por "atitudes incompatíveis com a vocação de um escritor soviético e por contrariar as tradições da literatura russa, o povo, a paz e o Socialismo".

A pressão do PC (Partido Comunista) sobre Pasternak foi tanta que no dia 29 de novembro de 1958 ele enviou um telegrama à Academia Sueca, renunciando ao Prêmio Nobel. Pasternak morreu no dia 30 de maio de 1960, escapando de outra condenação, porém, sete semanas depois, a KGB prendia sua amante, Olga Ivinskaya (que havia denunciado Pasternak àquele serviço secreto), e sua filha, acusando-as de manipulações financeiras que envolviam royalties entregues a Pasternak. Ambas foram condenadas, no dia 7 de dezembro de 1960, respectivamente, a 8 e 5 anos de prisão, em colônias penais da Sibéria.

O escritor Sholkhov, em 1965, teve permissão de Brezhnew e Kosygin para receber seu Prêmio Nobel de Literatura em Estocolmo. O historiador ucraniano Valentyn Moroz foi condenado em 1966 a cinco anos de internamento num campo de concentração, dos quais um ano teria que ser passado numa solitária na Prisão de Vladimir. O principal "crime" de Moroz foi sua oposição à "russificação" da Ucrânia. No campo de concentração, Moroz escreveu Relatório da Reserva de Béria, em que ataca a sociedade soviética e os privilégios dos "herdeiros de Stálin". Em 1970, Moroz foi novamente condenado a nove anos, seis numa prisão e três num campo de trabalhos forçados. O historiador Andrei Amalrik, autor do livro A União Soviética Sobreviverá até 1984? (seria uma alusão ao livro 1984, de George Orwell?), foi condenado em dezembro de 1970 a três anos num campo de concentração. Outra obra sua foi Viagem Involuntária à Sibéria, baseada em suas próprias experiências no kolkhoz (4) siberiano de Tomsk, onde havia passado o exílio, de maio de 1965 a agosto de 1966.

"Por volta do fim de 1968, a reabilitação de Stalin ou a reestalinização tinha-se processado rapidamente. A crítica de crimes de Stalin, de prisões em massa, deportações, assassinatos, expurgos e campos de concentração tinha desaparecido da imprensa e das conversações privadas" (Abraham Rothberg, in Os Herdeiros de Stalin, pg. 264).

O Kremlin considerava graves as ameaças da liberalização, do revisionismo e da reforma. A liberalização tcheca tinha sido desencadeada por intelectuais e escritores, o que ocasionou a invasão da Tchecoslováquia, no dia 21 de agosto de 1968, com a destituição de Dubcek - "equivalente internacional de Soljenítsin".

Uma carta do dissidente Pyotr Yakir, em 6 de março de 1969, à revista do Partido, Kommunist, condenava Stalin em 17 pontos, documentados em fontes soviéticas, relacionando os crimes com o código penal soviético. Atribuía a Stalin a responsabilidade por suicídios e execuções de líderes de cúpula soviéticos no Partido, no Governo, nas Forças Armadas, nos serviços de Inteligência e na Polícia.

Comunistas estrangeiros refugiados na União Soviética tinham sido assassinados por ordens de Stalin, incluindo comunistas proeminentes, como os alemães Hermann Schubert e Heinz Neumann, os húngaros Bela Kun e Gabor Farkas, os poloneses Tomasz Dombal e Yulian Lesczynski (um dos fundadores do PC polonês) e até o suíço Fritz Platten, que protegera Lenin com seu próprio corpo por ocasião do primeiro atentado contra a vida de Lenin. Yakir condenava Stalin, ainda, pela repressão e deportação em massa de povos não russos ("política do liqüidificador") durante e depois da II Guerra Mundial, entre eles os tártaros da Criméia, os bálcares, os chechenos-ingushes e os calmiques. Yakir condenava Stalin pelos expurgos que liquidaram 80% do corpo de oficiais superiores – aqueles que lutaram na Guerra Civil Espanhola, técnicos e intelectuais – com o resultado de milhões de baixas nas primeiras fases da II Guerra Mundial, especialmente no cerco nazista a Leningrado.

O dissidente mais famoso foi o escritor Alexandre Soljenítsin, autor de Arquipélago Gulag, livro que sugeria que toda a Rússia sob Stálin era semelhante a um imenso mar pontilhado de ilhas de campos de concentração – na grandiosa licença literária criada por Soljenítsin -, realidade que o autor conhecia profundamente, por ter sido enviado e um desses campos. O autor sustenta que as atrocidades e perseguições do Estado soviético haviam começado em 1918, não sendo, portanto, uma criação arbitrária de Stálin, mas de Lênin.

A publicação do Arquipélago Gulag, em Paris, no ano de 1973, no original russo, comoveu a opinião pública mundial – exceto a opinião dos comunistas, de além e aquém-mar, obviamente. O livro de Soljenítsin foi documentado com 227 relatos, que cobrem o período de 1918 a 1956, e trata da imensa rede de campos de trabalhos forçados soviéticos, por onde passaram cerca de 66 milhões de pessoas, segundo cálculos do próprio autor.

Essa obra, cujo teor começou a circular na União Soviética em março de 1969, irritou as autoridades soviéticas e em novembro do mesmo ano Soljenítsin foi expulso da União dos Escritores. Para os "herdeiros de Stálin", Soljenítsin renegava o próprio país, dando munição aos inimigos ocidentais, e era reincidente neste tipo de "crime", pois já havia publicado Um Dia na Vida de Ivan Denisovich (seu primeiro romance), em que retratava o Estado soviético como um Estado policial e a União Soviética como uma prisão ou campo de concentração. Dos 6.790 membros da União dos Escritores, somente 7 solicitaram a reconsideração da expulsão de Soljenítsin. Houve protestos do mundo inteiro contra sua expulsão, incluindo nomes como Arthur Miller, Günter Grass, John Updike, Bertrand Russell, Hannah Arendt, Graham Greene, Julian Huxley, Jean-Paul Sartre.

Soljenítsin, capitão de Artilharia do Exército russo em combate na linha de frente contra os nazistas, na II Guerra Mundial, foi detido no front de Koenigsberg em janeiro de 1945 e condenado, sem julgamento, a oito anos de prisão e mais três anos de exílio no desterro do Gulag, tendo passado pelo menos um ano em hospital para tratamento de câncer. A acusação baseou-se em carta enviada a um amigo, em que criticava os privilégios no Exército e a conduta de Stálin em relação à guerra.

Foi expulso do Sindicato dos Escritores, viveu 6 anos como escritor clandestino e em 1970 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Após a publicação do Arquipélago Gulag, em 1973, Soljenítsin foi levado de avião, sob protesto, para a Alemanha Ocidental, e em 1974 escolheu a Suíça para morar. Além do Arquipélago Gulag, outros livros do escritor foram publicados no Ocidente, a exemplo de O primeiro círculo, Pavilhão dos cancerosos (durante um ano, Soljenítsin ficou internado num hospital para tratamento de câncer) e Agosto de 1914, que circularam na URSS em edições clandestinas, ou samizdat (5).

Logo após sua prisão, o regime stalinista queimou os rascunhos do que poderia se tornar mais uma obra de Soljenítsin: "Até que, no quarto mês, todos os cadernos do meu Diário de guerra foram lançados na boca infernal do fogão da Lubianka, espalhando a casca vermelha de mais um romance morto na Rússia e deixando as borboletas negras da fuligem voar pela mais alta das chaminés" (Arquipélago Gulag, pg. 141).

Gulag é a abreviatura de Glávnoie Upravliênie Láguerei (Administração Geral dos Campos). O livro Arquipélago Gulag discorre sobre os campos de trabalhos forçados soviéticos (campos de concentração), por onde passaram cerca de 66 milhões de prisioneiros, e sobre a fome endêmica que se seguiu a vários planos econômicos fracassados, levando pais a comerem seus próprios filhos - donde se originou, provavelmente, a expressão "comunista come criancinha":

"No fim da guerra civil, e como sua conseqüência natural, abateu-se sobre a região do Volga um ano de fome como nunca se tinha conhecido. Como isso não adorna muito a coroa de glória dos vencedores desta guerra, falam sobre ele entre os dentes e sem ir além de duas linhas. E no entanto essa fome chegou até ao canibalismo, até aos pais comerem os seus próprios filhos. Nunca uma fome assim tinha sido conhecida na Rússia, nem sequer no 'Tempo dos Tumultos' (então, como testemunham os historiadores, os cereais mantinham-se debaixo da neve durante vários anos, sem serem colhidos). Um só filme sobre essa fome poderia projetar uma luz nova sobre tudo o que vimos e tudo o que sabemos acerca da Revolução e da guerra civil. Mas não há nem filmes, nem romances, nem estudos estatísticos – é algo que se procura esquecer, que não embeleza. Além disso, a causa de qualquer fome, é costume fazê-la recair sobre os kulaks (6)" (Arquipélago Gulag, pg. 331-332).

"O Gulag abrangia o complexo de prisões, centros de triagem e campos de trabalhos forçados a que eram condenados opositores do regime, suspeitos de atividades 'anti-soviéticas', criminosos comuns e hordas de pessoas que nunca souberam exatamente por que haviam sido encarceradas. (...) As palavras que descreveram esse sorvedouro de vidas em escala industrial agora podem ser acompanhadas por raras e chocantes imagens: mais de 200 desenhos feitos pelo coronel da reserva Danzig Baldaiev, integrante da polícia soviética de 1947 até o início dos anos 80. (...) Particularmente chocantes, e raríssimos, são os retratos das prisões femininas. Uma das cenas mostra mulheres estupradas em massa por presos comuns, durante um trajeto de barco, sob o olhar indiferente dos guardas. As enfermeiras estavam sempre lotadas de prisioneiras ensangüentadas, que haviam sofrido deslocamento do útero por causa do trabalho massacrante. Na chegada, as mulheres eram enfileiradas nuas diante dos administradores do campo. Eles escolhiam as preferidas e lhes ofereciam a opção de serem poupadas do serviço pesado caso aceitassem tornar-se suas escravas sexuais" ("Recordações da casa dos mortos", revista Veja, 7/7/1999, pg. 60 a 62).

No Gulag de Vorkuta, milhões de zeks (presos políticos) e outros prisioneiros proporcionaram mão-de-obra barata para a derrubada, o corte e o transporte de madeira para a mineração. Segundo afirma o economista soviético Vasily Selyunin, "a princípio, os campos eram usados para sufocar a oposição política à revolução de 1917; depois, tornaram-se um meio de resolver tarefas puramente econômicas." Os desenhos chocantes do coronel Baldaiev resultaram em um documentário feito pelo repórter Angus Macqueen, da BBC inglesa.

"A diretriz de escrever Deus com letras minúsculas é a mais desprezível espécie de mesquinhez ateísta. (...) Para não dizer que nos lábios das pessoas de 1914, a palavra "deus" em letras minúsculas fere os ouvidos e é historicamente falsa" (Soljenítsin, no epílogo de seu livro Agosto de 1914).

Muitos dissidentes foram internados em hospitais psiquiátricos (7), alguns condenados in absentia: a universitária Olga Ioffe, presa devido a poesias confiscadas em sua casa, escritas por ela e por seu pai, Y. Ioffe, foi internada num manicômio, em 1970, como "esquizofrênica crônica"; Valeria Novodvorskaya, detida por distribuir panfletos com uma poesia em que criticava o PC, foi diagnosticada pelo Instituto Serbsky e internada numa clínica psiquiátrica da prisão de Kazan como "esquizofrênica paranóica", em 1970. A poetisa Natalia Gorbanevskaya foi presa e internada no hospital psiquiátrico de Kaschenko, onde os pacientes eram "acalmados" com uma dose do tranqüilizante estelazine.

Em 1970, Zhores A. Medvedev, especialista em gerontologia, foi confinado em uma clínica psiquiátrica de Kaluga. A publicação clandestina Crônica noticiava esses tipos de julgamentos criminosos que ocorriam em Moscou, Gorki, Kharkov, Riga, Kiev e mais 2 cidades da República do Uzbeque.

No Brasil, a esquerda não perde tempo em falar sobre os "militares torturadores". Depois de ler a obra de Soljenítsin, sabe-se por que a esquerda mundial se acha no direito de ficar com o monopólio da tortura:

"Se aos intelectuais das peças de Tchekhov, sempre fazendo conjeturas sobre o que seria a vida dentro de vinte, trinta ou quarenta anos, tivessem respondido que na Rússia se torturariam os acusados durante a instrução do processo, que se lhes apertaria o crânio com um anel de ferro, que se submergiria uma pessoa num banho de ácidos, que se ataria um homem nu para o expor às formigas e aos percevejos, que se lhe introduziria uma baioneta em brasa pelo orifício anal ('a marca secreta') (8), que se lhe comprimiriam lentamente com uma bota os órgãos sexuais e que, como tratamento mais suave, se torturaria alguém durante uma semana, sem o deixar dormir, nem lhe dar de beber, espancando-o até deixar-lhe o corpo em carne viva – nem uma só dessas peças teria chegado até o fim e todos os seus heróis teriam ido parar no manicômio.
(...)
Mas não será mais terrível ainda que, trinta anos depois, nos venham dizer: não se deve falar disso! Recordar o sofrimento de milhões de pessoas é deformar a perspectiva histórica! Tratar de descobrir a essência dos nossos costumes é obscurecer o progresso material! Que se fale antes dos altos-fornos que foram acesos, ou dos trens de laminação, ou dos canais que foram abertos... Não, dos canais também não é conveniente falar... Antes do ouro de Kolimá... Não, também isso é conveniente. Enfim, pode-se falar de tudo, mas desde que se saiba faze-lo, glorificando-o...
Será então incompreensível que amaldiçoemos a Inquisição? Acaso, além das fogueiras, não havia ao mesmo tempo serviços religiosos solenes? Veja-se, não se proibiam os camponeses de trabalhar todos os dias... Eles podiam celebrar o Natal com canções, pela Trindade as moças teciam coroas..." (Arquipélago Gulag, pg. 102-103).


Vale lembrar, também, as atrocidades perpetradas pelos comunistas canibais chineses. Durante a Revolução Cultural, muitos condenados à morte tinham seus corpos retalhados, assados e comidos. "Num massacre famoso, na escola de Mushan em 1968, na qual 150 pessoas morreram, vários fígados foram extirpados na hora e preparados com vinagre de arroz e alho" ("Canibais de Mao", revista Veja, 22 de janeiro de 1997, pg. 48-49).

Essa prática de canibalismo se tornou corriqueira, no período de 1968 e 1970, quando centenas de "inimigos do povo" foram devorados em Guangxi, conforme pesquisas de Zheng Yi. O trabalho desse dissidente exilado nos EUA desde 1992, resultou no livro Scarlet Memorial – Tales of Cannibalism in Modern China (Memorial Escarlate – Histórias de Canibalismo na China Moderna). Na mesma época, havia um tipo de tortura sui generis: alguns presos, ainda vivos, tinham seus órgãos sexuais (pênis e testículos) arrancados, assados e comidos, como consta no mesmo artigo de Veja: "Wang Wenliu, maoísta promovida a vice-presidente do comitê revolucionário de Wuxuan durante a Revolução Cultural, especializou-se em devorar genitais masculinos assados". Criancinhas comidas na Rússia, "churrasquinhos" degustados na China: uma autêntica churrascaria do Inferno!

Há centenas de filmes que relatam a história de Hitler e de seu criminoso regime nazista. Temos filmes comoventes a respeito do tema, como A Vida é Bela, de Roberto Benigni, e A lista de Schindler, de Steven Spielberg. Infelizmente, não temos nenhum filme que trata dos Gulags, dos horrores comunistas na antiga União Soviética, nem dos crimes cometidos por Mao Tse-Tung e Pol Pot. O que estão esperando Spielberg, Benigni e demais cineastas de Hollywood, da Europa ou do Brasil, para enfim dar início a um filme épico, como seria um que tivesse o título O Arquipélago Gulag ou A Revolução Cultural?

Quem se cala a respeito dos crimes hediondos cometidos na URSS, na China e nos demais regimes marxistas, compactua com os criminosos comunistas. Infelizmente, o nazismo sempre foi e sempre será o melhor álibi dos comunistas, e dificilmente teremos um julgamento à Nuremberg para condenar os criminosos de guerra vermelhos.


Notas:

(1) SOLJENÍTSIN, Alexandre. Arquipélago Gulag. Difel/Difusão Editorial S. A., São Paulo e Rio de Janeiro, 1976.

(2) ROTHBERG, Abraham. Os Herdeiros de Stálin – a dissidência e o regime soviético 1953-1970. Edições O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1975 (Tradução de Edilson Alkmim Cunha).

(3) Lubianka - Em russo significa "amorzinho". Era o nome de rua e praça de Moscou, sede das polícias políticas soviéticas (Tcheká, GPU, NKVD etc.) e da prisão famosa.

(4) Kolkhoz foi o sistema de coletivização marxista da agricultura na URSS, a partir de 1922, cujo processo de privatização teve início em 1992, após o fim da União Soviética. Qualquer semelhança dos antigos kolkhozes russos com os atuais assentamentos do MST não é mera coincidência.

(5) Samizdat - Sistema de contrabando de manuscritos de intelectuais soviéticos para o Ocidente. Às vezes, a própria KGB estava por trás desses contrabandos, recebendo elevadas somas de dinheiro por obras proibidas na União Soviética que eram publicadas no exterior. Nesses casos, os manuscritos eram confiscados das residências dos dissidentes e remetidos ao Ocidente à revelia do autor. Em 1967, 3 livros sobre expurgos e campos de concentração tinham sido contrabandeados para o Ocidente: Tempestade de Areia, de Galina Serbryakova, A Casa Abandonada, de Lydia Chikovskaya, e Uma Jornada ao Furacão, de Evgenia Ginzburg.

(6) Kulak - Classe média camponesa, surgida na Rússia após a Nova Política Econômica (NEP), a partir de 1921 e até 1928. A partir de 1928, essa classe foi massacrada por Stalin, junto com os Nepmen (classe de comerciantes e industriais surgida na mesma época), dando origem aos Sovkhozes, fazendas estatais coletivas (Gosplan). O erudito marxista Leszek Kolakowski considerou esse massacre como "provavelmente a mais maciça operação militar jamais conduzida por um Estado contra seus próprios cidadãos". Somente no período da coletivização e eliminação de classes (1929-36), 10 milhões de homens, mulheres e crianças tiveram morte antinatural (estudo demográfico de Iosif Dyadkin, "Avaliação de mortes antinaturais da população da URSS em 1927-58", que circulou sob a forma de samizdat). Com o fim dos kulaks, para conseguir moeda estrangeira, Stalin passou a vender secretamente, para o Ocidente, obras de arte do Museu Hermitage, Leningrado, uma coleção que levou mais de 100 anos para juntar. "Os quadros foram adquiridos por milionários do mundo inteiro. O maior foi Andrew Mellon que, em 1930-31, obteve, por US$ 6,654,053.00, 21 quadros, incluindo 5 Rembrandt, 1 Van Eyck, 2 Franz Hals, 1 Rubens, 4 Van Dyck, 2 Rafael, 1 Velásquez, 1 Boticelli, 1 Veronese, 1 Chardin, 1 Ticiano e 1 Perugino – provavelmente o tesouro da melhor qualidade jamais transferido numa única tacada e tão barato. Todas essas obras foram para a Washington National Gallery, criada virtualmente por Mellon" (Paul Johnson, in Tempos Modernos, pg. 226). O embaixador americano em Moscou, Joseph E. Davies, que disse sobre Stalin que 'uma criança gostaria de sentar-se no seu colo e um cachorro caminharia a seu lado', era subornado pelo Governo soviético para emitir falsas informações a seu país, e que por isso lhe permitia "comprar ícones e cálices para a sua coleção particular a preços abaixo do mercado" (Ib., pg. 232). "Além daqueles camponeses executados pela OGPU ou mortos em batalha, um número entre dez e onze milhões foi transportado para o norte da Rússia européia, para a Sibéria e para a Ásia Central; desses, um terço foi para campos de concentração, um terço para o exílio interno e outro terço foi executado ou morreu em trânsito" (Paul Johnson, op. cit., pg. 228). Sob Lenin, foi utilizado um pequeno número de "escravos políticos", mas, sob Stalin esse número expandiu-se e "uma vez iniciada a coletivização forçada, em 1930-33, a população dos campos de concentração subiu para 10 milhões e, depois do começo de 1933, ela nunca caiu abaixo desse número, até bastante tempo depois da morte de Stalin" (Paul Johnson, in Tempos Modernos, pg. 230).

(7) Hospitais psiquiátricos - Utilizados na antiga União Soviética para internar intelectuais que criticavam o regime comunista, a exemplo do Instituto Serbsky. Em muitos julgamentos, o regime de Moscou declarava os réus de "irresponsáveis", negando-lhes a permissão de estar presentes em seu próprio julgamento, para facilitar o envio dos dissidentes a clínicas psiquiátricas. "O castigo psiquiátrico era dado principalmente a transgressores do capcioso artigo 58 do código criminal, que lidava com atos 'anti-soviéticos': entre os internos companheiros de Yarkov estavam incluídos cristãos, trotskystas sobreviventes, opositores a Lissenko (9), escritores heterodoxos, pintores e músicos, letões, poloneses e outros nacionalistas. (...) Em 1959, o Pravda publicou a seguinte citação de Kruschev: 'Um crime é um desvio dos padrões de comportamento geralmente reconhecidos, com freqüência causado por distúrbios mentais. (...) Aqueles que começam a exigir a oposição ao Comunismo... é claro que o estado mental de tais pessoas não é normal. (...) A primeira vez em que o Ocidente ficou inteirado da psiquiatria penal soviética foi em 1965, com a publicação de 'Ward 7', de Valery Tarsis" (Paul Johnson, in Tempos Modernos, pg. 573-4) (10). Centenas de pessoas perfeitamente sadias foram libertadas de clínicas psiquiátricas depois das denúncias de Kruschev, em 1956. Os responsáveis, porém, não foram punidos, permaneceram nos cargos para mais tarde, com a reabilitação de Stálin, voltar a agir contra os dissidentes.

(8) Empalação - "Suplício antigo, que consistia em espetar o condenado em uma estaca, pelo ânus, deixando-o assim até morrer." (Dicionário Aurélio). Olavo de Carvalho, em seu artigo O espírito da clandestinidade, afirma: "O requinte soviético foi que os candidatos a empalamento não foram escolhidos entre empaladores em potencial, mas entre padres e monges, para escandalizar os fiéis e fazê-los perder a confiança na religião, segundo a meta leninista de `extirpar o cristianismo da face da terra`; esfolar prisioneiros, fechá-los numa tumba junto com cadáveres em decomposição, colocá-los na ponta de uma prancha e escorregá-los lentamente para dentro de uma fornalha, encostar na sua barriga uma gaiola sem fundo, com um rato dentro, e em seguida aquecer com a chama de uma vela o traseiro do rato para que, sem saída, ele roesse o caminho no corpo da vítima - eis alguns dos processos então documentados por uma comissão de investigação dos países aliados. (...) O canal dos exilados cubanos, TV Martí, exibe semanalmente uma procissão infindável de dedos cortados, orelhas arrancadas e olhos vazados que atestam a continuidade do leninismo nas prisões políticas de Havana."

(9) Lissenkoísmo - Política oficial soviética do estudo da genética, que classificava as ciências como "burguesas", de um lado, e como "socialistas" ou "proletárias", de outro lado. As teorias mendelianas de hereditariedade, adotadas pelo principal geneticista da União Soviética, Nikolai Vavilov, eram consideradas um anátema para os dirigentes soviéticos. Como os genes, àquela época, não podiam ser "vistos", os lissenkoístas podiam acusar os mendelianos de os haver "inventado". O Lissenkoísmo confiava mais na criação do que na natureza, estava mais empenhado em moldar o "novo homem socialista" do que aceitar a realidade dos caracteres humanos geneticamente transmitidos e suas mutações ocasionais. A teoria genética desenvolvida por Gregor Mendel, Thomas Morgan, Hugo de Vries, August Weismann, recebeu oposição na União Soviética dos geneticistas liderados por I. V. Michurin e T. D. Lissenko, que seguiam o lamarckianismo – a crença na hereditariedade dos caracteres adquiridos – e métodos de tentar mudar os caracteres por meio de mudança do ambiente, uma concepção que se encaixava melhor nas idéias marxistas-leninistas. "A biologia soviética caiu nas mãos do extravagante e fanático T. D. Lissenko, que pregava uma teoria de caracteres adquiridos por herança, à qual chamou de 'vernalização': a transformação de trigo em centeio, pinheiros em abetos e assim por diante – essencialmente tolices medievais. (...) A genética foi atacada ferozmente como 'uma pseudociência burguesa', 'antimarxista', que levava à 'sabotagem' da economia soviética. (...) Na medicina, uma mulher chamada O. B. Lepeshinskaya, pregava que a velhice poderia ser adiada graças a lavagens intestinais de bicarbonato de sódio" (Paul Johnson, op. cit., pg. 381).

(10) JOHNSON, Paul. Tempos Modernos - O mundo dos anos 20 aos 80. Biblioteca do Exército Editora e Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1994 (Tradução de Gilda de Brito Mac-Dowell e Sérgio Maranhão da Matta).

Trechos retirados de: http://www.webartigos.com/artigos/memorial-das-vitimas-do-comunismo/2515/

A Europa e o Comunismo



O Muro de Berlim, erigido em agosto de 1961, era o muro da crueldade e da vergonha. O estigma de um império que só conseguia sobreviver protegendo-se com muros e metralhadoras. Sua queda foi o anúncio da liberdade.

A foto da barreira sendo alegremente desmantelada completa a rica heráldica do século 20: as guerras de 1914 e 1939, Hitler numa cervejaria em Munique, Lenin dançando na neve em 1917, Gandhi com os pés nus diante de soldados ingleses. Cada um desses ícones integra uma constelação de imagens. O dia 9 de novembro de 1989 não fugiu à regra: o concerto de Mtislav Rostropovich enquanto os berlinenses demoliam o Muro com picaretas e martelos no Portão de Brandemburgo.

Como ocorreu nas grandes rupturas da História, estalidos já anunciavam a agonia do grande corpo doente. Em 1980, na Polônia, as greves de Gdanski e o surgimento de um sindicato livre, o Solidariedade, e do líder Lech Walesa, abriam uma brecha na casamata. Na Hungria, a Cortina de Ferro se rompe em pedaços em 19 de agosto de 1989. Nesse dia, diante das câmeras, os chanceleres da Hungria e da Áustria cortaram a cerca de arame farpado que separava os dois países, permitindo a entrada na Áustria de uma maré de alemães orientais que se agrupavam na Hungria.

Semanas antes, o líder soviético Mikhail Gorbachev, o homem da perestroika, em visita a Berlim Oriental, foi acolhido por jovens que gritavam: "Faça o amor e não muros." Um mês antes da queda do Muro, 70 mil pessoas se juntaram diante da Igreja de São Nicolau, na cidade de Leipzig, para vaiar o Partido Comunista alemão oriental.

E, então, chegava ao fim o longo capítulo iniciado em outubro de 1917 por Lenin, Trotski e o Cruzador Aurora, em São Petersburgo. Em poucas semanas, enquanto a União Soviética ainda prosseguia na sua trajetória já meio zonza (como o pato cujo pescoço é cortado, mas continua a andar jorrando sangue), todas as colônias do império começam a se libertar.

Nós, na Europa, não entendíamos mais nada. Um Estado construído para durar mil anos se desfazia como uma boneca de pano. Além disso, tínhamos esquecido a geografia do continente. Descobrimos que rios, que nunca ouvimos falar, não tinham deixado de correr.

Fui à biblioteca empoeirada do meu avô em busca dos velhos livros de escola de antes da guerra de 1914. E então recoloquei a Moldávia no seu lugar. Descobri que havia duas Ossétias, uma do Norte e outra do Sul. Toda uma geografia submersa voltava à superfície como um reflexo que sai do fundo cintilante de um lago. Uma Europa fantasma surgia do nada, retomava o seu lugar, preenchia a enorme rachadura que o belo dia de 9 de novembro de 1989 tinha aberto na História do século 20.

Em menos de dois anos, as 15 repúblicas da União Soviética proclamaram sua soberania e depois, com exceção da Rússia e do Casaquistão, a independência. Duas avançaram muito rápido, antes mesmo do golpe de Estado abortado de agosto de 1991 - a Geórgia (abril de 1990) e a Lituânia (março de 1990). As outras seguiram o exemplo.

As "democracias populares", os países da Europa Oriental que, após a 2ª Guerra, caíram pela força, crime ou trapaças na esfera de influência de Moscou, aproveitaram a ocasião. Em Praga, a "Revolução de Veludo", em 17 de novembro de 1989, pôs fim ao comunismo. Na Bulgária, o stalinista Todor Zhikov foi substituído por um comunista mais aberto, Petar Mladenov. Na Romênia, o tirano Nicolau Ceausescu foi derrubado em dezembro de 1989 por um movimento popular. Ele fugiu, mas foi capturado, julgado sumariamente, e executado como um cachorro, com sua mulher.

Restava a Alemanha Oriental. Seu estado de deterioração era tal que o então chanceler alemão ocidental, Helmut Kohl, decidiu reunificar as duas Alemanhas - ideia que não agradava muitos dirigentes ocidentais, em especial os dos Estados europeus, cujo lema era: "A reunificação: pensar nela, sempre; falar dela, jamais." O então presidente francês, François Mitterrand, chegou a afirmar: "Amo tanto a Alemanha que prefiro que existam duas delas." Mas Kohl insistiu e obteve um acordo de Gorbachev, em troca de concessões à URSS.

Foi o fim do império comunista, ou soviético, no Leste Europeu. A Europa mutilada, dilacerada, de 1950, voltou a se reagrupar e estava livre.

O comunismo não desapareceu em todo o planeta. Em cinco países, o partido único ainda leva o nome de "comunista" ou faz referência ao comunismo. Entre eles, o PC da China, onde as reformas que foram realizadas, sem renegar o comunismo, poderiam portar o lema que resume toda a pobre filosofia das sociedades burguesas livres: "Enriqueçam." Alguns outros países mantêm intacta a teoria e a prática marxistas, como a Coreia do Norte e Cuba.

Em compensação, é preciso reconhecer que, 20 anos depois da debandada, o comunismo e mesmo a União Soviética recuperaram senão a força, pelo menos uma certa atração. E essa atração é explicada, de um lado, por um sentimento intrínseco da natureza humana: a nostalgia. Cada um de nós ama o que foi o seu passado, mesmo que tenha sido sombrio ou triste. De outro lado, essa atração se explica pela imagem com frequência fútil, corrompida e imoral que se tornou a figura do Ocidente.

É na antiga União Soviética que esses ventos nostálgicos sopram com mais constância. Por duas razões: em primeiro lugar, a Rússia não se conforma de ter perdido tantos territórios e ser apenas um simples peão no jogo de xadrez mundial, e não mais uma "das duas superpotências". De outro lado, Vladimir Putin, obcecado pelo império morto, não faz nada para desestimular essas nostalgias. "O fim da URSS foi a maior catástrofe histórica do século 20", disse Putin.

Curiosamente, essa nostalgia também é observada no Ocidente. O comunismo stalinista é rejeitado pela maioria, mas o homem que dominou a ideologia comunista e as ações de Lenin, Trotski, Stalin ou Mao Tsé-tung - o alemão Karl Marx - está tendo um retorno assombroso.

O fim da URSS contribuiu vigorosamente para esse estranho "ressurgimento" de Marx. Caído em desgraça quando a URSS passou a cometer seus crimes, fazer suas asneiras, Marx hoje reencontra sua virgindade, e a sua filosofia - como suas lições de economia - brilha intensamente. Os erros, para não dizer as vilanias, os crimes cometidos pelas sociedades liberais, banqueiras e cínicas do Ocidente colaboram para esse ressurgimento de Marx.

Mas o comunismo, que foi sinônimo - como todas as tiranias - de muro, prisão, silêncio, censura, crueldade, está sob todos os aspectos condenado pelo simples movimento da ciência. Um mundo dominado pela internet com certeza tem seus graves inconvenientes. Mas pelo menos é um mundo onde os muros e as barreiras entre países e cérebros estão destinados a desaparecer. Mesmo o Irã e a China comunista acabarão percebendo isso. A internet anuncia, talvez, o fim dos muros.

Por: Gilles Lapouge, correspondente em Paris.
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,fim-do-imperio-comunista-anuncia-nova-europa,460812,0.htm
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